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sábado, 2 de junho de 2012

Edifício ≠ Espaço

Uma das perguntas que surge em relação à religião é se esta só é praticada a sério quando tem um sítio próprio, uma estrutura e objectos a ela associados que tenham uma espécie de carimbo de aprovação desse próprio culto. Um cristão que nunca tenha ido a uma igreja é menos cristão do que um que o faça frequentemente? Passar-se-à o mesmo com aqueles que não tenham uma cruz algures em casa? Um muçulmano só pode realizar rituais nos sítios apropriados dentro do seu país ou nos templos para ele construídos foram dele?

Um dos grandes problemas com as religiões não é o seu conceito, que na sua essência é algo de bom e genuíno, mas sim a maneira como é depois materializado pelo Homem e algumas regras que de um certo modo se impuseram mas cuja origem é desconhecida.

The missing element in all of these is that, in actual fact, neither the Koran nor Traditions—the sayings of the Prophet— dictates a shape for a mosque or its accompanying structures. Few Muslims would even disagree with the idea that there is no need for a mosque to pray. Scholars have also argued that the minaret was essentially an invention of formal archaism (simply a tower imitating a lighthouse) and that its use in a religious context was almost accidental. [1]

Embora um conceito seja algo abstracto, o que representa é aquilo com que nos estamos a identificar, não é algo físico, mas uma ideologia em que acreditamos, e mais uma vez o que falha é que estamos demasiado apegados à forma e nos esquecemos do que está dentro de cada um de nós, não é preciso adereços, é uma decisão que tomamos, uma escolha que temos de fazer. Se calhar a pergunta que mais sentido faz é se queremos que essa experiência seja individual, familiar ou colectiva, aí sim, entra o espaço comum.

"Common places," architect Gianni Longo has written, "bring people together for the face-to-face contact that is essential for a healthy society." [2] 

Azra Aksamija reforça a elasticidade da religião ao criar novos meio de expressar essa religiosidade sem necessitar da estrutura arquitectónica que lhe costuma estar associada. Ela utiliza também a forma manuseável da roupa para demonstrar, de uma maneira quase primária, que um culto pode dar origem a outro, ou seja, reforça as semelhanças, tal como fez o artista JR ao colar retratos gigantes de palestinianos e israelitas nos muros que separam as duas regiões. O sucesso destas experimentações, segundo a artista, não depende de mais ninguém senão das próprias pessoas que entram em contacto com os seus projectos, elas têm de se distanciar de tudo aquilo que lhes parece ter sido imposto inconscientemente e sentirem-se bem com qualquer que seja a maneira que tenham de prestar a sua devoção.

Morie Nishimura teve também a ideia de aliar praticidade ao culto, criando mobília caseira que possibilita momentos de comunhão familiar ao mesmo tempo que funciona como mobília normal e serve para guardar objectos ou realizar outras actividades.

Estes novos olhares sobre algo tão antigo como a religião reflectem maneiras de pensar inovadoras que se tentam adaptar ao seu tempo e, na maioria das vezes, só com boas intenções. As ideias apresentadas parecem ser passíveis de ser aceites, porque afinal não é só o espaço de culto que tem de evoluir mas também a própria mentalidade que se tem de adaptar ao mundo multicultural e, sobretudo, ao mundo tecnológico.

O Mundo tecnológico foi aquilo que mais veio a impulsionar esta mudança, mas o que tem de mal é que acaba por ser mais uma materialização da essência pura de algo invisível. Tem algo de bom na medida em que a divulgação é assim mais alargada, mas também tem algo de muito degradante pois é um meio impessoal e, como tal, uma máscara da irresponsabilidade. A internet veio a criar o marketing eclesiástico quando esta é uma decisão pessoal que não devia precisar de chamarizes tão corriqueiros e muitos websites, tal como a arquitectura, não reflectem bem o que representam.

O trabalho do designer Lukas Franciszkiewicz, em destaque como referência numa post isolada, debruça-se sobre a transformação da religião no mundo moderno e na nossa dependência dos meios digitais, tentando reproduzir a experiência transcendental com auxilio da tecnologia.

Estabeleço também a analogia de que, no mundo secular, esta acaba por se tornar numa espécie de religião por nos conferir algumas sensações semelhantes, tal como segurança, confiança e, quiçá, um sentimento de pertença através das redes sociais.

É o seu ponto de vista único sobre o assunto e deixo-o aqui a título de curiosidade, deixo também os projectos dos dois artistas anteriormente mencionados, são de valor estas novas maneira de abordar algo que é facilmente susceptível colocar quem ousou pensar fora da caixa na linha de fogo da crítica.

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[1] AVCIOGLU, Nebahat - Identity-as-Form: The Mosque in the West, The University of California, 2007.
[2] BRESSI, Todd W. - Common Places: Anything but Simple, American Institute of Architects Regional and Urban Design Committee, 1997. 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cultura + Forma = Significado

In order to avoid ideological pitfalls we must then pose the pertinent question of form (...) [1]

A forma é poderosa como meio de comunicação no mundo religioso. Nesse contexto, funciona como um símbolo, capaz de sintetizar culturas inteiras. A forma aos olhos do conhecedor permite-lhe identificar a época, a nacionalidade, a história ou o culto. Atrás dela se esconde um conto que remota a um período indefinido no passado, há uma razão de ser. A forma não é simplesmente uma forma. Não é tomada assim, e por isso é um assunto de extrema delicadeza.

Contudo, o facto de às vezes lhe ser conferida "demasiada" importância faz com que muitos arquitectos se aproveitem delas para dar o toque de "identidade cultural" aos seus projectos, uma espécie de via fácil, permitindo-lhes basicamente fazer qualquer coisa desde que depois a "baptizem" com esses elementos chave. Isto veio a ser criticado por muitos, chamando-lhe o filósofo Edward Said "a representação do outro pela sua ‘outridade’", uma forma de discriminação pós-colonial, isto é, a tradução de uma civilização fora do seu contexto através de um elemento considerado paradigma dessa mesma, assim, não é a imagem de um povo que dita a forma, mas a forma que compreende a imagem que temos desse mesmo, um estereótipo. É o que acontece com, por exemplo, as mesquitas construídas no Ocidente, que mantêm a cada novo projecto a sua cúpula e minarete, considerados motivos indissociáveis do povo em questão.

(...) the minaret, together with the dome, has become a structural metonym of Muslim identity that can no longer be read in any other context than the one it predetermines, even though there exist in the Muslim countries both old and new mosques without minarets and domes. 

This overloaded process promoted Islam or Muslimhood in the West as if it were a nationality, with one culture, one language, one identity, one form, and so on. In this abstract and uncritical semiotic operation both the signifier—form—and the signified—identity—are essentially either reduced to empty shells, or on the contrary hardened into ideological 'mythemes' (...) [2] 

Os minaretes em particular são vistos como pertencentes à civilização muçulmana e esta é assim associada a um pobre repertório de formas numa atitude discriminatória disfarçada de cosmopolitismo. Houve até casos extremos em que se optou por construir o minarete em primeiro lugar, ficando assim uma construção incompleta, mas supostamente com "a forma que detinha mais importância". Foi preferível neste caso representar um símbolo em vez de começar por criar um espaço de comunhão. O lado espiritual parece ter sido deixado de lado em detrimento da construção de um monumento ou ícone.

(...) it is clear that most contemporary mosques no longer involve the makings of "a place of worship and collective social activities," but rather (...) they are in the service of "a monument" symbolizing power as culture. 

 (...) modernist architects assimilated the colonial ideology of difference wholeheartedly into their movement by endowing pure abstract forms with the notions of authority and authenticity (Celik 1992, 58-77). Thus, instead of discouraging any attempt at reducing an aesthetic artifact (such as a mosque) to one of its features (such as a minaret) which pushes the association chain all the way to the collective identity (Muslim) that such an artifact is supposed to hypostatize, they have instead endorsed it. [3]

A ideia de que a globalização deu origem a uma hibridização de várias culturas parece ser apelativa, contudo as minorias em terras estrangeiras continuam a ter o seu espaço exclusivo, tornando-as não parte do todo mas sim um núcleo restrito, rodeado de simbolismo que se torna numa barreira enunciadora da propriedade do "outro". Em vez de haver uma tentativa de homogenizar a sua presença, esta é mais assumida, contribuindo para o seu isolamento dentro da sociedade.

Muslims in Europe were usually perceived as transient immigrants, refugees, or negligible ethnic minorities, rather than as part of communities deserving their own places of worship or cultural institutions. [4]

Outro dos problemas com os templos muçulmanos no Ocidente é o facto de, apesar do financiamento vir dos próprios países que estão a ser representados, o arquitecto é na maioria das vezes local, ou seja, alguém que não está dentro da cultura e que vai buscar a sua inspiração não ao original mas ao precendente: trabalhos semelhantes já realizados na sua terra natal, que reproduzem os mesmos erros e estereotipías vezes sem conta, deste modo, nunca há nenhuma evolução e a imagem mantém-se sempre constante e desactualizada.

A construção de um templo "alienígena" dentro de uma civilização com ideologias diferentes parece demonstrar uma atitude positiva de aceitação, mas quando reparamos que não são feitos esforços de compreender e tentar assimilar essa mesma cultura e ela continua a ser considerada como forasteira e segregada pelos habitantes locais os verdadeiros objectivos desta obra de "bondade" são postos em causa.

Não há nenhuma tentativa para fomentar um contacto mais próximo e menos superficial entre as diferentes culturas que habitam uma zona continuando estas a ser ignoradas pela maioria da população. Esta é uma oportunidade de tentar esbater barreiras sociais, algo que devia ser prioridade no código ético de diversas profissões, entre elas o Design e a Arquitectura, pensar um espaço colectivo para ser mais do que isso.

O Alto-Comissário considerou Portugal como "o país mais tolerante da Europa". No entanto, "os portugueses deviam conhecer melhor outras religiões, pela afirmação da diversidade. Seria útil para a comunidade portuguesa conhecer outros credos", sublinhou. Para que tal aconteça, Rui Marques referiu a importância da "educação intercultural nas escolas" e da "sensibilização através dos media", salientando igualmente o "diálogo entre as diferentes religiões que coexistem em Portugal". [5]

Em Lisboa aquilo que acontece não é uma atitude de intolerância mas sim uma ignorância e falta de interesse, estas entidades tem os seus próprios núcleos de actividades e espaços de lazer que proporcionam eventos interessantes para a maioria, para além de agora constituírem obrigatoriamente uma parte da nossa cidade, e por isso é importante que tomemos contacto com eles, não faz sentido passar ao lado desse território, ele é de todos.

One of the virtues of the Saidian turn is to contextualize "otherness" not as a cultural dead-end, burdened by an over-determining sense of identity, but as an opportunity to participate in an open-ended becoming. [6]

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[1] AVCIOGLU, Nebahat - Identity-as-Form: The Mosque in the West, The University of California, 2007.
[2] Idem
[3] Idem
[4] Idem
[5]  
http://www.jn.pt/paginainicial/interior.aspx?content_id=522697
[6] Idem

quarta-feira, 30 de maio de 2012

\ \\ Ícones // /

Remeto a um dos parágrafos que citei anteriormente: a opinião de Tibor Kalman de que a palavra "cool" estava a substituir a palavra "conteúdo"[1]. Que quer isto dizer no contexto da arquitectura? Quando vemos edifícios que se manifestam por serem bastante diferentes dos que estamos habituados a ver, o que estão eles a querer comunicar? Terão uma razão perfeitamente justificável no que concerne à forma que decidiram tomar ou é este apenas um "Look at me!", o querer tornar-se ícone, marcando pela diferença aliando-se ao factor "cool" e ignorando todos os outros aspectos.

I am suspicious of architecture which makes pompous claims for itself. I think a design that sets out with the conscious intention of being Iconic is unworthy. And, I think a pre-requisite of a good design is one which contributes to its context. [2]

Há bons ícones e maus ícones, para que um ícone seja válido precisa de contribuir para o contexto urbano. A ausência de ícones pode tornar uma cidade "enfadonha" e sem pontos de interesse, mas demasiados ícones confundem-nos e já não sabemos a qual devemos dar a devida apreciação. Graham Morrison descreve a criação de um ícone através da analogia das provas de mergulho, cada participante tem pontos conforme a dificuldade do seu salto, e deve entrar na água de forma graciosa e com o mínimo "splash" possível, mas para muitos designers e arquitectos, entrar na água sem espirrar água para todos os lados não faz parte dos seus planos.

Descriptions of the dives like ‘A flying forward double somersault with twist’ bring the images of several recent buildings to mind. Add a ‘reverse take off with jack-knife’ and you will have a spectacle that will simultaneously confuse the critics, impress the students, and momentarily delights the public. [3]

A Igreja Caravela pretende sem dúvida ser um salto com este tipo de nome, confundindo toda a gente que passa ao mesmo tempo que os faz parar e contemplar o edifício por nunca terem visto algo semelhante.

Morrison propõe uma série de questões que devemos pôr para criar uma opinião perante edifícios deste tipo:

1. Dentro da ordem e equilibrio da cidade, será de valor representar uma certa coisa como ícone?
2. Porque é que tem este aspecto?
3. Estará a esforçar-se demais?
4. Que contribuição tem este ícone para o seu contexto [4]

Põe-se também a questão se não estará a acontecer algum tipo de "efeito Gaudi". Edifício que geram muita polémica negativa nos primeiros tempos em que são construídos mas que depois são aceites até se tornarem eventualmente num motivo de orgulho. Estará esta igreja apenas fora do seu tempo?

Although we live in a secular age, we still need familiar and reassuring reference points. With traditional Icons, such as temples or churches, no longer holding the same significance, we need to replace them with new forms which confirm the change in our values, continue to make our evolving cities more legible, and to give us pleasure.

Vivemos numa era secular mas que ainda não perdeu a sua espiritualidade. Não é necessário ser-se religioso para se apreciar uma igreja ou para se retirar prazer do silêncio e da actividade meditativa, muitos não se identificam com a doutrina mas continuam a querer participar nestes rituais à sua maneira, e esses rituais têm de facto algo para dar [5]. As igrejas modernas têm também de pensar nestas pessoas e como as poderão cativar, de um certo modo, porque dependem delas para a sua continuação e não perderem a sua função por completo. Isto é retratado pelas (cada vez mais) igrejas abandonadas pela ausência de frequentadores, como a Reading Between the Lines, reaproveitada mais tarde através desta iniciativa. Neste intuito uma certa alteração formal dá um carácter mais neutro e apelativo às estruturas, conferindo-lhes um estatuto de ícone que mergulha suavemente sem qualquer salpico, chamando pessoas a uma zona esquecida. Estes são os bons ícones.

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[1] KALMAN, Tibor - Social Responsability (Entrevista por Steven Heller), 1998.
[2] 
MORRISON, Graham - The Trouble With Icons, Speech to the AJ/Bovis "Awards for Architecture" dinner, 2004.
[3] Idem
[4] Idem
[5] BOTTON, Alain de - Atheism 2.0

terça-feira, 29 de maio de 2012

Forma // Antes e Depois

 Le Corbusier before him who declared: "Our own epoch is determining, day by day, its own style." 

(...) It would have been completely foreign to a medieval or Renaissance church architect to talk this way. Not only because most of them believed they were expressing their Christian faith by means of their craft, but also because they saw themselves as part of an artistic tradition — one whose standards they had to live up to. Far from looking back on the past with scorn and disdain as something passé ("architecture," insisted Le Corbusier, "is stifled by custom"), medieval and Renaissance architects looked upon the tradition of which they were a part with a sense of both pride and humility as something to be emulated and imitated. [1]

Os tempos mudam, e com eles evolui também a Arquitectura marcando aquilo pode ser denominado como uma espécie de "estilo" da época reflectindo a estética e preocupações actuais mas ao mesmo tempo com a preocupação de se imiscuir o melhor possível no meio que a rodeia, que está frequentemente recheado de edifícios de outras alturas e de factores a ser tidos em conta. A transição tem então de ser suave e fazer algum sentido.

Tudo deve ter um propósito, mas há sempre os faux-pas desta profissão, pessoas com mais ego do que preocupações ambientais, sociais e éticas, preocupadas em construir ícones sem terem todo o trabalho crucial de pesquisa que envolve qualquer projecto.

Os espaços de culto, como a maioria dos edifícios, também necessitam de evoluir com o tempo. Mas este é um tipo de construção peculiar na medida em que se desconhece, na maior parte das vezes, as formas modernas que ele está a tomar, restando ainda a imagem antiga.

Depois de alguma observação pude constatar que muitas das igrejas que se considera terem feito correctamente essa transição do tradicional para o moderno assentam o seu aspecto em formas mais orgânicas e em princípios mais simples e genuínos: há pureza, há neutralidade, e não se perde nada, muito pelo contrário, muitos destes trabalhos são obras de engenho geniais que conseguem tirar proveito da Natureza de forma inteligente e minimamente económica.

A forma orgânica acaba por ser bastante representativa daquilo que se considera ser espiritual, a luz é um factor importante em muitos cultos, seja sob a forma de uma chama, da luminosidade parcial das lâmpadas colocadas em sítios estratégicos ou da incisão do Sol em aberturas e superfícies transparentes, proporcionando jogos de reflexos ou cores (vitrais).

Quando mais se assemelharem à Natureza (na medida do possível) mais relaxantes e aprazíveis nos parecem ser, é um pouco como a biomímica das emoções que nos são suscitadas pelo meio ambiente. A paz que sentimos no meio de uma floresta, a ver o pôr do sol ou perto da água é algo que cada vez mais nos falta no meio da cidade e que tentamos reproduzir através da criação destes espaços.

Neste sentido, a modernidade está também a trazer uma coisa interessante: formas menos simbólicas e restritas. A sumptuosidade que parecia dizer "isto pertence à religião cristã" torna-se de certa maneira mais convidativa, incitando não apenas à oração mas sim à instrospecção e à meditação, algo religiosamente neutro, qualquer um se pode identificar com estas acções como também não será ofensivo se se identificarem com uma forma que não grite uma identidade específica.

Ofensivo é, de facto, quando essas formas são ignoradas por completo a favor de uma estética individualista do próprio arquitecto, não reflectindo nada em concreto e deixando muitos religiosos desorientados e insatisfeitos por verem os seus locais de escape serem transformados, com auxilio das suas doações monetárias, num show off egoísta pela parte de quem pensou o projecto.

É este o caso da Igreja Caravela, que pretende ser marcante sem saber muito bem porquê, transformar-se num ícone descurando os seus frequentadores, desprezando os fins sociais de união e pertença, favorecendo em vez disso promessas de uma possível fama nacional e internacional e protagonismo para o seu autor. O grande problema aqui é estes serem valores contrários àqueles defendidos pela religião, como poderão as pessoas sentir-se confortáveis dentro de um mamarracho que se tenta vender aos olhos dos outros, não passando de um invólucro vazio para algo tão delicado?

With modernist "functionalism," however, we are often left with church buildings that make few, if any, references to the iconic heritage or architectural traditions of the Catholic Church. How exactly, then, are the common, working people of the parish supposed to recognize and understand their own building when it is not speaking their own language of form?

And for those elite few who do understand the "meaning" of the building, what can they say to the pious, hardworking churchgoers whose tithes have gone to pay for the building? That it was the goal of modernists to sweep away all the traditions of the past in order to make way for an architecture that would not only "represent," but in fact help to create, the new industrial, technological man of the future?

How would the non-elite, working-class Catholics for whom most of these churches are built reconcile all this — the elitism, the rejection of tradition and authority, the revision of values — with their faith in a Church based on centuries of tradition and authority? Was the new "technological man" of the modernist architects the sort of human person their Church was trying to inspire them to become? How, in other words, do you function in a building where the philosophy of the designers involves rejecting everything you hold dear? [2]

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[1] RANDALL, Smith - Don't Blame Vatican II: Modernism and Modern Catholic Church Architecture in Sacred Architecture, Issue 13, 2007.
[2]  
RANDALL, Smith - Don't Blame Vatican II: Modernism and Modern Catholic Church Architecture in Sacred Architecture, Issue 13, 2007.

sábado, 21 de abril de 2012

(Espaço) - /Forma\ - Função!

Form ever follows function. [1]

Esta conhecida frase foi dita pela primeira vez pelo arquitecto Louis Sullivan, mas aparece muitas vezes atribuída a outro arquitecto e sem a partícula conectora “ever”. [1]

Começo com ela este novo tema, não por considerar que seja uma verdade absoluta, mas porque acho que é a frase que mais sucintamente liga as duas coisas que quero abordar. A relação íntima entre a forma e a função dos objectos foi durante algum tempo linha guia para designers e arquitectos, o melhor e maior exemplo é a Natureza, nada é feito por acaso, no entanto, esta relação está a ser posta em causa pela arquitectura contemporânea (já para não falar do design): nem sempre forma segue função, forma não necessita obrigatoriamente de seguir função ou função segue a forma. 

Embora esta pergunta tenha dado azo a que se formassem dois grupos de opiniões divergentes, a soma das respostas continua a rondar os tons de cinzento. Tal significa que as palavras de Sullivan não servem para argumentar contra a obra de Troufa Real, que claramente dá primazia à forma, tal significa que, com a evolução das coisas, outros valores surgiram, quando toca ao ser-humano há a questão do gosto, o cumprimento da função deixou de valer por si só e o estilo passou a ter um papel preponderante, terá passado a função para segundo plano?

Functional design, despite its absolute simplicity, has been losing value by then. How come? How can a concrete formula like “form follows function” be morphed to “function follows form” without being misunderstood or made fun of? As a result of this, designers perceived functionality as a movement. Moving from “function” to “functionality” and from “attitude towards design” to “style” is worth evaluating. What do they mean when people say “This is pure Baroque” or “This is a real Biedermeier”? Do they mean that these include everything except functionality? Or do they mean design is not only functional but also decorative? “Functionality” started to develop from a point where “function” is the major issue. Then it was developed to a pure movement by architects and designers. [2]

Uma coisa é certa: form ever follows function já não tem a pertinência que tinha. O problema é se, no caso de arquitectura, os projectos começam não a ser uma preocupação com aqueles que os vão frequentar mas sim uma espécie de concurso “olha para mim e vê o que eu sei fazer”. Uma forma de ostentação de trabalho ou mais um projecto para o portefólio.

I think the word “cool” has replaced the word “content”. if you have enough attitude in your work, if it’s cool enough, then it doesn’t matter that there’s no content. [3]

Olhando para os edifícios dos dias de hoje, é difícil dizer para que servem. No caso de habitação conseguimos identificar uma casa como um local para viver mas, devido à mixórdia de estilos, é difícil dizer, quando procuramos um espaço comum ou serviço, o que é o quê, sem ter à porta alguns símbolos chave que nos auxiliem, sinalética ou o nome daquilo que lá podemos encontrar. Se lhes tirarmos essas indicações, então podem ser qualquer coisa e aquele local que pretende passar a mensagem de local de culto acaba por nos indicar algo diferente [4]. Contudo, parece-me inevitável que o paradigma não se mantenha formalmente idêntico e tenha de haver um período de adaptação das pessoas ainda que, se nos disserem no meio do Chiado que há uma igreja perto, automaticamente procuramos uma ideia feita, a noção que temos de igreja, e não um barco com um mastro gigante, ou seja, a nossa mente de um certo modo ainda é um pouco conservadora nesse aspecto.

Estou disposta a encarar um projecto como o de Troufa Real como algo que poderá a vir tornar-se “menos mau”, mas não há dúvidas que esta estrutura e outras do género têm coisas objectivamente más, o facto de negligenciarem completamente tudo o que está para além do aspecto exterior, o facto de negligenciarem a situação actual de crise (em todos os sentidos) em que vivemos, quer a nível nacional quer a nível global. Decididamente o factor “cool” tem uma ponderação superior à que deveria ter. Uma estrutura planeada para ter cerca de 100m é capaz de marcar diferença por ser a primeira igreja nacional (e talvez mundial) do género, mas o que é que se perde em favor desta ostentação? 

Até agora esta obra custou três milhões de euros. [5] O custo final compreende também a segunda fase da construção (torre e centro social) e estima-se ficar entre sete a nove milhões de euros, sendo que uma parte do dinheiro vem da carteira dos contribuintes e futuros frequentadores do espaço. [6] Toda esta quantia utilizada para florear um edifício poderia bem estar na sua posse e ser usada para fins humanitários ou ambientais. 

As estruturas são feitas para as pessoas e, como tal, devem ser construídas a pensar nestas mesmas. Será possível serem tomadas decisões assim tão imponderadas, cuja escolha parece tão óbvia, entre fazer uma torre rodar como “a hélice do ADN” (valores de ostentação) e usar esse dinheiro para ajudar alguém, nem que seja uma só pessoa (valores sociais).

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[1] RAWSTHORN, Alice - The Demise of "Form Follows Function" in The New York Times, 2009.
[2] RAMS, Dieter - Entrevista (www.designtrophy.com), 2001
[3] KALMAN, Tibor - Social Responsability (entrevista por Steven Heller), 1998.
[4] RANDALL, Smith - Don't Blame Vatican II: Modernism and Modern Catholic Church Architecture in Sacred Architecture, Issue 13, 2007.
[5] Informação tirada do site da igreja (www.paroquiasfxavier.org).
[6] HENRIQUES, Ana - Lisboa inaugura a polémica igreja-caravela do Restelo in Público, 2011.