quinta-feira, 31 de maio de 2012

Reading Between the Lines // Pieterjan Gijs and Arnout Van Vaerenbergh







A Reading Between the Lines, na Bélgica, é um exemplo interessante de como um local se consegue camuflar completamente no seu ambiente. É feita a partir de um jogo de sobreposição de camadas de aço, uma material que à partida nada tem de orgânico mas que consegue adquirir essa propriedade graças ao uso do intelecto humano, o que nos faz acreditar que mesmo com os materiais mais rudes se pode estar em sintonia com o ambiente e fazer estruturas formalmente agradáveis.

A Igreja Invisível, como é também chamada, tira completo partido da iluminação natural, aliás, vive disso. Apesar de ter algum simbolismo associado à religião cristã acabou por se tornar num espaço bastante neutro pelo seu diálogo com a Natureza.

Este projecto faz parte de um projecto maior que consiste em trazer arte urbana para espaços públicos, assim sendo não é apenas um trabalho arquitectónico como também escultórico. A iniciativa chama-se Pit e vem da Z33, uma casa de arte contemporânea belga. Esta obra procura atrair vários tipos de público, não só os que se identificam com a doutrina, a um espaço que deixou de ser frequentado, chamando a atenção para o que está a acontecer com várias igrejas na Europa, que acabam abandonadas.

Pit is an organic project of Z33 that unfolds since June 2011 in the region of Haspengouw. Also in 2012 the project is still evolving. Some of the works remain in place for a longer period, others can be seen for only a short time. Besides the artworks that are placed in the open space, there are also workshops, side activities and public events.

Midden-Haspengouw is a typical culture landscape, designed to its own needs by human hands. Pit zooms in on three recurring themes in the region. 

First of all on the religious heritage. In and around Borgloon you find a lot of small parish churches. These churches are, however, often empty, as a result of the declining church visits. The future of the empty churches is a current problem anticipated by some artists in Pit. Other artists focus on the agro-economic landscape of Midden-Haspengouw. The changing economic situation in the area leads to commuters and sleeping towns, but also to new forms of residential tourism. 

Pit finally finds its inspiration in the culture-historical heritage of the region. In the area of Borgloon you can find for example the Roman Road (Romeinse Kassei) and the Fruit track (Fruitspoor). These tracks provide a good accessibility and interesting cycling and biking routes. Moreover, they display the historical value of the region. [1]

E para mais informação sobre arte em espaços públicos, um dos meus colegas está a debruçar-se sobre o assunto neste momento no seu blog Living in a Gallery.

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http://www.photographyserved.com/gallery/Gijs-Van-Vaerenbergh-Reading-Between-The-Lines-(Z33)/2119156
[1] http://www.z33.be/en/about-pit

quarta-feira, 30 de maio de 2012

\ \\ Ícones // /

Remeto a um dos parágrafos que citei anteriormente: a opinião de Tibor Kalman de que a palavra "cool" estava a substituir a palavra "conteúdo"[1]. Que quer isto dizer no contexto da arquitectura? Quando vemos edifícios que se manifestam por serem bastante diferentes dos que estamos habituados a ver, o que estão eles a querer comunicar? Terão uma razão perfeitamente justificável no que concerne à forma que decidiram tomar ou é este apenas um "Look at me!", o querer tornar-se ícone, marcando pela diferença aliando-se ao factor "cool" e ignorando todos os outros aspectos.

I am suspicious of architecture which makes pompous claims for itself. I think a design that sets out with the conscious intention of being Iconic is unworthy. And, I think a pre-requisite of a good design is one which contributes to its context. [2]

Há bons ícones e maus ícones, para que um ícone seja válido precisa de contribuir para o contexto urbano. A ausência de ícones pode tornar uma cidade "enfadonha" e sem pontos de interesse, mas demasiados ícones confundem-nos e já não sabemos a qual devemos dar a devida apreciação. Graham Morrison descreve a criação de um ícone através da analogia das provas de mergulho, cada participante tem pontos conforme a dificuldade do seu salto, e deve entrar na água de forma graciosa e com o mínimo "splash" possível, mas para muitos designers e arquitectos, entrar na água sem espirrar água para todos os lados não faz parte dos seus planos.

Descriptions of the dives like ‘A flying forward double somersault with twist’ bring the images of several recent buildings to mind. Add a ‘reverse take off with jack-knife’ and you will have a spectacle that will simultaneously confuse the critics, impress the students, and momentarily delights the public. [3]

A Igreja Caravela pretende sem dúvida ser um salto com este tipo de nome, confundindo toda a gente que passa ao mesmo tempo que os faz parar e contemplar o edifício por nunca terem visto algo semelhante.

Morrison propõe uma série de questões que devemos pôr para criar uma opinião perante edifícios deste tipo:

1. Dentro da ordem e equilibrio da cidade, será de valor representar uma certa coisa como ícone?
2. Porque é que tem este aspecto?
3. Estará a esforçar-se demais?
4. Que contribuição tem este ícone para o seu contexto [4]

Põe-se também a questão se não estará a acontecer algum tipo de "efeito Gaudi". Edifício que geram muita polémica negativa nos primeiros tempos em que são construídos mas que depois são aceites até se tornarem eventualmente num motivo de orgulho. Estará esta igreja apenas fora do seu tempo?

Although we live in a secular age, we still need familiar and reassuring reference points. With traditional Icons, such as temples or churches, no longer holding the same significance, we need to replace them with new forms which confirm the change in our values, continue to make our evolving cities more legible, and to give us pleasure.

Vivemos numa era secular mas que ainda não perdeu a sua espiritualidade. Não é necessário ser-se religioso para se apreciar uma igreja ou para se retirar prazer do silêncio e da actividade meditativa, muitos não se identificam com a doutrina mas continuam a querer participar nestes rituais à sua maneira, e esses rituais têm de facto algo para dar [5]. As igrejas modernas têm também de pensar nestas pessoas e como as poderão cativar, de um certo modo, porque dependem delas para a sua continuação e não perderem a sua função por completo. Isto é retratado pelas (cada vez mais) igrejas abandonadas pela ausência de frequentadores, como a Reading Between the Lines, reaproveitada mais tarde através desta iniciativa. Neste intuito uma certa alteração formal dá um carácter mais neutro e apelativo às estruturas, conferindo-lhes um estatuto de ícone que mergulha suavemente sem qualquer salpico, chamando pessoas a uma zona esquecida. Estes são os bons ícones.

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[1] KALMAN, Tibor - Social Responsability (Entrevista por Steven Heller), 1998.
[2] 
MORRISON, Graham - The Trouble With Icons, Speech to the AJ/Bovis "Awards for Architecture" dinner, 2004.
[3] Idem
[4] Idem
[5] BOTTON, Alain de - Atheism 2.0

Igreja da Boa Nova // Roseta Vaz Monteiro Arquitectos








A Igreja da Boa Nova foi construída no bairro "Fim do Mundo", bairro esse que está a ser tratado mais aprofundadamente no blog O Gueto de uma colega minha, ao qual podem e devem aceder para mais informação sobre o assunto.

O projecto foi feito em conjunto com a comunidade local e acabou também por ser nomeado em 2011 como um dos 5 finalistas para o prémio de melhor edifício religioso da ArchDaily, juntamente com mais dois projectos portugueses.

O objectivo do edifício era criar uma nova identidade para aquele local de conotação tão negativa (começando pelo seu nome). O bairro "Fim do Mundo" é agora conhecido como bairro da Senhora da Boa Nova, sendo este espaço uma espécie de ponto de união e reunião entre as diferentes camadas sociais que habitam o local. Com várias actividades e até uma escola primária agregada.

We believe designing sacred space should revolve around the ability to state the supremacy of the Void. Throughout the project’s development, the key conceptual elements were two empty spaces: the courtyard, a place where the community could meet; and the nave, a sacred space presenting that which could not be presented. We wished the nave to be an introspective, infinite, and irrepresentable space.

Today, the church stands within an elliptical plan, providing a dynamic sense of scale, and covered by an interior dome, eliminating the wall/ceiling division and spatial references within. The windows are deep, bringing indirect natural lighting into the nave and distancing the suburban surroundings, and the exterior walls curve to present an anthropomorphic object holding within the ilimited, infinite, and irrepresentable Void.

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http://www.archdaily.com/121074/boa-nova-church-roseta-vaz-monteiro-arquitectos/

Capela de Santa Ana // e|348 Arquitectura







Construída em Santa Maria da Feira, esta pequena e modesta capela tira o proveito da luminosidade exterior através de várias pequenas janelas rectangulares que de noite têm o efeito inverso, projectando a luz do interior do edifício para o exterior.

Uma das principais condicionantes para o seu formato em forma de L e pequena dimensão foi o terreno em que se situava, um projecto bem desenvolvido, moderno e despretensioso, que cumpre a sua função e se insere pacificamente no contexto rural em que foi construído, o que lhe permitiu também ser nomeado para o prémio da ArchDaily de 2011.

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http://www.archdaily.com/118854/santa-ana’s-chapel-e348-arquitectura/

terça-feira, 29 de maio de 2012

Forma // Antes e Depois

 Le Corbusier before him who declared: "Our own epoch is determining, day by day, its own style." 

(...) It would have been completely foreign to a medieval or Renaissance church architect to talk this way. Not only because most of them believed they were expressing their Christian faith by means of their craft, but also because they saw themselves as part of an artistic tradition — one whose standards they had to live up to. Far from looking back on the past with scorn and disdain as something passé ("architecture," insisted Le Corbusier, "is stifled by custom"), medieval and Renaissance architects looked upon the tradition of which they were a part with a sense of both pride and humility as something to be emulated and imitated. [1]

Os tempos mudam, e com eles evolui também a Arquitectura marcando aquilo pode ser denominado como uma espécie de "estilo" da época reflectindo a estética e preocupações actuais mas ao mesmo tempo com a preocupação de se imiscuir o melhor possível no meio que a rodeia, que está frequentemente recheado de edifícios de outras alturas e de factores a ser tidos em conta. A transição tem então de ser suave e fazer algum sentido.

Tudo deve ter um propósito, mas há sempre os faux-pas desta profissão, pessoas com mais ego do que preocupações ambientais, sociais e éticas, preocupadas em construir ícones sem terem todo o trabalho crucial de pesquisa que envolve qualquer projecto.

Os espaços de culto, como a maioria dos edifícios, também necessitam de evoluir com o tempo. Mas este é um tipo de construção peculiar na medida em que se desconhece, na maior parte das vezes, as formas modernas que ele está a tomar, restando ainda a imagem antiga.

Depois de alguma observação pude constatar que muitas das igrejas que se considera terem feito correctamente essa transição do tradicional para o moderno assentam o seu aspecto em formas mais orgânicas e em princípios mais simples e genuínos: há pureza, há neutralidade, e não se perde nada, muito pelo contrário, muitos destes trabalhos são obras de engenho geniais que conseguem tirar proveito da Natureza de forma inteligente e minimamente económica.

A forma orgânica acaba por ser bastante representativa daquilo que se considera ser espiritual, a luz é um factor importante em muitos cultos, seja sob a forma de uma chama, da luminosidade parcial das lâmpadas colocadas em sítios estratégicos ou da incisão do Sol em aberturas e superfícies transparentes, proporcionando jogos de reflexos ou cores (vitrais).

Quando mais se assemelharem à Natureza (na medida do possível) mais relaxantes e aprazíveis nos parecem ser, é um pouco como a biomímica das emoções que nos são suscitadas pelo meio ambiente. A paz que sentimos no meio de uma floresta, a ver o pôr do sol ou perto da água é algo que cada vez mais nos falta no meio da cidade e que tentamos reproduzir através da criação destes espaços.

Neste sentido, a modernidade está também a trazer uma coisa interessante: formas menos simbólicas e restritas. A sumptuosidade que parecia dizer "isto pertence à religião cristã" torna-se de certa maneira mais convidativa, incitando não apenas à oração mas sim à instrospecção e à meditação, algo religiosamente neutro, qualquer um se pode identificar com estas acções como também não será ofensivo se se identificarem com uma forma que não grite uma identidade específica.

Ofensivo é, de facto, quando essas formas são ignoradas por completo a favor de uma estética individualista do próprio arquitecto, não reflectindo nada em concreto e deixando muitos religiosos desorientados e insatisfeitos por verem os seus locais de escape serem transformados, com auxilio das suas doações monetárias, num show off egoísta pela parte de quem pensou o projecto.

É este o caso da Igreja Caravela, que pretende ser marcante sem saber muito bem porquê, transformar-se num ícone descurando os seus frequentadores, desprezando os fins sociais de união e pertença, favorecendo em vez disso promessas de uma possível fama nacional e internacional e protagonismo para o seu autor. O grande problema aqui é estes serem valores contrários àqueles defendidos pela religião, como poderão as pessoas sentir-se confortáveis dentro de um mamarracho que se tenta vender aos olhos dos outros, não passando de um invólucro vazio para algo tão delicado?

With modernist "functionalism," however, we are often left with church buildings that make few, if any, references to the iconic heritage or architectural traditions of the Catholic Church. How exactly, then, are the common, working people of the parish supposed to recognize and understand their own building when it is not speaking their own language of form?

And for those elite few who do understand the "meaning" of the building, what can they say to the pious, hardworking churchgoers whose tithes have gone to pay for the building? That it was the goal of modernists to sweep away all the traditions of the past in order to make way for an architecture that would not only "represent," but in fact help to create, the new industrial, technological man of the future?

How would the non-elite, working-class Catholics for whom most of these churches are built reconcile all this — the elitism, the rejection of tradition and authority, the revision of values — with their faith in a Church based on centuries of tradition and authority? Was the new "technological man" of the modernist architects the sort of human person their Church was trying to inspire them to become? How, in other words, do you function in a building where the philosophy of the designers involves rejecting everything you hold dear? [2]

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[1] RANDALL, Smith - Don't Blame Vatican II: Modernism and Modern Catholic Church Architecture in Sacred Architecture, Issue 13, 2007.
[2]  
RANDALL, Smith - Don't Blame Vatican II: Modernism and Modern Catholic Church Architecture in Sacred Architecture, Issue 13, 2007.

sábado, 21 de abril de 2012

(Espaço) - /Forma\ - Função!

Form ever follows function. [1]

Esta conhecida frase foi dita pela primeira vez pelo arquitecto Louis Sullivan, mas aparece muitas vezes atribuída a outro arquitecto e sem a partícula conectora “ever”. [1]

Começo com ela este novo tema, não por considerar que seja uma verdade absoluta, mas porque acho que é a frase que mais sucintamente liga as duas coisas que quero abordar. A relação íntima entre a forma e a função dos objectos foi durante algum tempo linha guia para designers e arquitectos, o melhor e maior exemplo é a Natureza, nada é feito por acaso, no entanto, esta relação está a ser posta em causa pela arquitectura contemporânea (já para não falar do design): nem sempre forma segue função, forma não necessita obrigatoriamente de seguir função ou função segue a forma. 

Embora esta pergunta tenha dado azo a que se formassem dois grupos de opiniões divergentes, a soma das respostas continua a rondar os tons de cinzento. Tal significa que as palavras de Sullivan não servem para argumentar contra a obra de Troufa Real, que claramente dá primazia à forma, tal significa que, com a evolução das coisas, outros valores surgiram, quando toca ao ser-humano há a questão do gosto, o cumprimento da função deixou de valer por si só e o estilo passou a ter um papel preponderante, terá passado a função para segundo plano?

Functional design, despite its absolute simplicity, has been losing value by then. How come? How can a concrete formula like “form follows function” be morphed to “function follows form” without being misunderstood or made fun of? As a result of this, designers perceived functionality as a movement. Moving from “function” to “functionality” and from “attitude towards design” to “style” is worth evaluating. What do they mean when people say “This is pure Baroque” or “This is a real Biedermeier”? Do they mean that these include everything except functionality? Or do they mean design is not only functional but also decorative? “Functionality” started to develop from a point where “function” is the major issue. Then it was developed to a pure movement by architects and designers. [2]

Uma coisa é certa: form ever follows function já não tem a pertinência que tinha. O problema é se, no caso de arquitectura, os projectos começam não a ser uma preocupação com aqueles que os vão frequentar mas sim uma espécie de concurso “olha para mim e vê o que eu sei fazer”. Uma forma de ostentação de trabalho ou mais um projecto para o portefólio.

I think the word “cool” has replaced the word “content”. if you have enough attitude in your work, if it’s cool enough, then it doesn’t matter that there’s no content. [3]

Olhando para os edifícios dos dias de hoje, é difícil dizer para que servem. No caso de habitação conseguimos identificar uma casa como um local para viver mas, devido à mixórdia de estilos, é difícil dizer, quando procuramos um espaço comum ou serviço, o que é o quê, sem ter à porta alguns símbolos chave que nos auxiliem, sinalética ou o nome daquilo que lá podemos encontrar. Se lhes tirarmos essas indicações, então podem ser qualquer coisa e aquele local que pretende passar a mensagem de local de culto acaba por nos indicar algo diferente [4]. Contudo, parece-me inevitável que o paradigma não se mantenha formalmente idêntico e tenha de haver um período de adaptação das pessoas ainda que, se nos disserem no meio do Chiado que há uma igreja perto, automaticamente procuramos uma ideia feita, a noção que temos de igreja, e não um barco com um mastro gigante, ou seja, a nossa mente de um certo modo ainda é um pouco conservadora nesse aspecto.

Estou disposta a encarar um projecto como o de Troufa Real como algo que poderá a vir tornar-se “menos mau”, mas não há dúvidas que esta estrutura e outras do género têm coisas objectivamente más, o facto de negligenciarem completamente tudo o que está para além do aspecto exterior, o facto de negligenciarem a situação actual de crise (em todos os sentidos) em que vivemos, quer a nível nacional quer a nível global. Decididamente o factor “cool” tem uma ponderação superior à que deveria ter. Uma estrutura planeada para ter cerca de 100m é capaz de marcar diferença por ser a primeira igreja nacional (e talvez mundial) do género, mas o que é que se perde em favor desta ostentação? 

Até agora esta obra custou três milhões de euros. [5] O custo final compreende também a segunda fase da construção (torre e centro social) e estima-se ficar entre sete a nove milhões de euros, sendo que uma parte do dinheiro vem da carteira dos contribuintes e futuros frequentadores do espaço. [6] Toda esta quantia utilizada para florear um edifício poderia bem estar na sua posse e ser usada para fins humanitários ou ambientais. 

As estruturas são feitas para as pessoas e, como tal, devem ser construídas a pensar nestas mesmas. Será possível serem tomadas decisões assim tão imponderadas, cuja escolha parece tão óbvia, entre fazer uma torre rodar como “a hélice do ADN” (valores de ostentação) e usar esse dinheiro para ajudar alguém, nem que seja uma só pessoa (valores sociais).

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[1] RAWSTHORN, Alice - The Demise of "Form Follows Function" in The New York Times, 2009.
[2] RAMS, Dieter - Entrevista (www.designtrophy.com), 2001
[3] KALMAN, Tibor - Social Responsability (entrevista por Steven Heller), 1998.
[4] RANDALL, Smith - Don't Blame Vatican II: Modernism and Modern Catholic Church Architecture in Sacred Architecture, Issue 13, 2007.
[5] Informação tirada do site da igreja (www.paroquiasfxavier.org).
[6] HENRIQUES, Ana - Lisboa inaugura a polémica igreja-caravela do Restelo in Público, 2011.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Conceito de Espaço e (+).

Todos os rituais humanos pressupõem um cenário. Mais: a ausência de um cenário impossibilita o desempenho desses rituais. [1]

Antes de mais, a barca teria de aportar primeiro neste conceito: espaço. Espaço que nos rodeia e que cumpre as funções para as quais é destinado, ou melhor ainda, nós cumprimos as funções, o espaço apenas está, existe por si. Diferentes fases da nossa vida requerem diferentes espaços, diferentes momentos do nosso dia acontecem em lugares variados. Há um espaço de estar, um espaço de refeição, um espaço onde os diálogos se estabelecem, um espaço para meditar, um espaço para contemplar as pessoas e imaginar as suas vidas. Há espaços que compreendem várias destas acções. O que é que se pode dizer sobre o espaço? O que é que nos diz o espaço sobre si mesmo?

Nas minhas pesquisas em torno de igrejas deparei-me precisamente com a última questão, uma das preocupações da arquitectura é existirem edifícios que pela sua aparência nada nos dizem sobre a sua função, outra das preocupações da actualidade é a construção de locais de culto respeitando o simbolismo a eles inerente, não ofendendo aqueles que o frequentam mas ao mesmo tempo actualizando o espaço para algo que faça sentido inserido no contexto moderno.

Ainda assim, que identidade(s) tem o lugar sagrado? Será que essa identidade é diferente de religião para religião, de lugar para lugar, de época para época? Será que para o judeu - a quem Deus falou primeiro - a identidade da sinagoga é substancialmente diversa da igreja do católico - onde o Filho de Deus mora efectivamente em carne, queremos dizer: vivo? Terá a mesquita do muçulmano - que reconhece o Criador e guarda a fé de Abraão e de Moisés - a mesma identidade da igreja do protestante - que acredita em Cristo mas para quem a Eucaristia é uma metáfora? [1]

Mas o objecto arquitectónico tem mais do que uma dimensão formal, embora seja esta com a qual contactamos primeiro. Como já referido, este vive da utilização que o próprio ser-humano faz dele. Mas se assim o é, porque é que a aparência dá azo a tanta discussão, quando no fundo a espiritualidade parte de cada um de nós? Tal como uma imagem não é somente uma imagem [3], uma forma tem um simbolismo a ela associado, não é apenas uma forma, e esse simbolismo acaba por resumir culturas/cultos/povos, muitas vezes funcionando como uma espécie de estereótipo aprovado.

A place also provides the opportunity to participate in a collective expression as we come to know what it means to be part of a larger territory. There is a connectedness, which we often describe as a sense of place, whose meaning and authenticity flow from relationships between a culture, time and locale. We value the distinctiveness of places that emerge out of such circumstances. [2]

Valorizamos certas formas distintas porque nos identificamos com elas, porque já as reconhecemos de um outro contexto, fazemos associações, mas mesmo assim, a essência do espaço continua a depender das pessoas que o habitam, cada vez mais este está idealizado como uma indústria produtora de “espaços em massa” semelhantes entre si, o que cada um retira deles é uma experiência única, não apenas dependente do sítio mas do que se passa dentro dele, e dentro de nós mesmos. Rene Dubos disse-o, de uma forma de algum modo poética, quando se referia aos metropolitanos de várias grandes cidades:

All urban areas in prosperous industrialized countries are of course becoming increasingly alike in their superficial aspects. The subways of New York, Montreal, Toronto, London, Paris and Moscow, all operate according to the same technological principles, but their employees and passengers follow the beat of different drums. [2]

O facto de utilizar um exemplo relativo aos meios de transporte não invalida que esse mesmo não se possa aplicar a lugares de culto ou a quaisquer outros locais, as pessoas são diferentes, e assim sendo, diferentes na maneira como se relacionam com as coisas, esta conclusão junta-se também a uma outra que pode ser contraditória: no fundo, nós próprios não temos noção até que ponto somos afectados pelo simbolismo do que nos rodeia, assim sendo, estas associações imediatas são algo que tem de ser tido em conta, quer na construção de um espaço ou, por extensão, na elaboração de um trabalho de comunicação.

Há que pensar que, como pessoas únicas que somos, na execução de um projecto a nossa noção das coisas nunca será objectiva, e como ser teimoso que é o ser-humano, a sua noção da noção que tem das coisas está longe de ser a verdade.

To me, the biggest sin that a designer may commit is to think that people and their lives are equal. Design that fulfills the requirements of functionality must be composed of the reality of human usage, human life, human needs, will and deep, diverse, patient emotions. The design of a product reflects the designers' thoughts of the people. [4]

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[1] JANEIRO, Pedro - Ordens Espaciais do Rito: A noção de cenário nos espaços arquitectónicos dedicados ao culto religioso, Ciclo de Conferências “Casas de Deus, Identidades do Espaço Sagrado” na Faculdade de Arquitectura, 2005.
[2] CHASTAIN, Thomas R. - Forming Place, Informing Practice in Places Journal, Issue 12, Number 3, 1999.
[3] MOURA, Mário - "Mad Men": que imagem? in Sound+Vision (site), 2012
[4] RAMS, Dieter - Entrevista in (www.designtrophy.com), 2001